INTERNACIONAL

Não, as grandes potências não são invencíveis

Reveses sofridos pelos russos na Ucrânia servem de estímulo aos ucranianos e fazem lembrar derrotas da URSS, EUA e França

Por: Carlos Taquari
Da redação | 14 de setembro de 2022 - 17:06

Ainda é cedo para dizer se os recentes avanços das tropas ucranianas na frente leste poderão determinar os rumos do conflito e uma eventual vitória da Ucrânia. Mas, a retomada de territórios controlados há meses pelos russos, é mais um sinal de que um desfecho a favor de Moscou não será tão fácil como Vladimir Putin e seus estrategistas devem ter imaginado.

Além disso, a aparente reviravolta faz lembrar o fato de que as grandes potências não são invencíveis. Mesmo quando enfrentam inimigos com recursos muito menores, seja em equipamentos militares ou número de soldados.

Afinal, quem faria uma aposta contra a França, em 1946, na Indochina; contra a antiga União Soviética, no Afeganistão, em 1979 e, em 2001, contra os EUA; ou contra os Estados Unidos, no Vietnã, em 1965? Em todos esses países as potências foram derrotadas, depois de perderem milhares de soldados e saírem humilhadas perante o mundo.

A França na Indochina

Durante quase dez anos, entre Dezembro de 1946 e Agosto de 1954, tropas francesas, com apoio dos Estados Unidos, enfrentaram os vietnamitas, apoiados pela China e antiga União Soviética. Mesmo com esse apoio, os vietnamitas tinham uma grande desvantagem diante dos franceses, em relação a armas e munições, além da falta de treinamento para a guerra convencional. Daí terem optado pela guerrilha, evitando os confrontos diretos.

Naqueles tempos, os territórios ao Sul da China, eram chamados de Indochina, incluindo o Vietnã, Laos e Camboja, todos sob domínio colonial da França. Após o longo confronto, que deixou cerca de 500 mil mortos, além de centenas de milhares de feridos, os franceses foram derrotados. Dos 40 mil franceses e aliados locais, capturados como prisioneiros, a maioria morreu na prisão, vítimas de maus tratos ou condições precárias de saúde.

Grandes potências

Ho Chi Min: liderou a guerra contra os invasores.

A batalha final foi travada em Dien Bien Phu, entre março e maio de 1954. E terminou com a vitória dos vietnamitas, liderados por Ho Chi Min (hoje o nome da antiga capital, Saigon) e comandados pelo general Nguyen Giap, que se consagrou como estrategista militar.

Entre os resultados do conflito incluem-se o surgimento do Vietnã do Sul, pró-ocidente, e Vietnã do Norte, com um regime comunista, apoiado por Moscou e Pequim, além da independência do Laos e Camboja.

A guerra do Vietnã e a derrota dos EUA

Após a derrota dos franceses para os vietnamitas, em 1954, os Estados Unidos passaram a se envolver de forma mais intensa nas questões políticas e militares no Sudeste da Ásia. Na década de 60, durante o governo de John Kennedy, esse envolvimento se ampliou. Inicialmente no Vietnã e depois nos países vizinhos, com o envio de tropas e participação do Exército, Marinha e Aeronáutica.

Em 1965, já ocorria uma guerra em grande escala, que se prolongou por dez anos. Ao longo desse período, os Estados Unidos apoiavam o governo do Vietnã do Sul contra as forças do Vietnã do Norte e seus aliados, a guerrilha do Vietcong.

Apesar de todo o poder de fogo dos norte-americanos e da supremacia aérea, os norte-vietnamitas e o Vietcong ofereceram uma dura resistência. Diante da possibilidade de derrota, os estrategistas norte-americanos, apelavam para arrasadores bombardeios aéreos, na tentativa de dobrar essa resistência. Ao mesmo tempo, recorreram a experiências que tiveram consequências trágicas, como o lançamento de agentes químicos – entre eles as bombas incendiárias de napalm – para destruir as florestas e expor as posições da guerrilha vietcong. Como resultado, milhares de pessoas morreram e outras milhares contraíram doenças provocadas pela exposição aos produtos químicos.

Helicópteros resgatam americanos na embaixada dos EUA em Saigon, em 1975.

Nem as enormes concentrações de tropas, os equipamentos militares de última geração ou os bombardeios, foram suficientes para evitar a derrota. No final, foram  58.220 mil soldados norte-americanos mortos e cerca de 300 mil feridos. O Vietnã do Sul, aliado dos EUA, teve mais de 200 mil militares mortos, além de centenas de milhares de civis. Do lado norte-vietnamita e do Vietcong, as vítimas fatais passam de um milhão, entre civis e militares.

Humilhados, os americanos deixaram o Vietnã, em 1975. Poucas imagens simbolizaram tanto a derrota dos americanos como a dos helicópteros pousando no teto da Embaixada dos Estados Unidos em Saigon, no dia 30 de Abril, de 1975, para recolher funcionários, cidadãos norte-americanos e integrantes do governo sul-vietnamita. As pessoas se atropelavam no teto, na tentativa de fuga e muitos ficaram para trás. Hoje, unificado, o Vietnã é uma próspera e pacífica república.

Afeganistão, o atoleiro das superpotências

No dia 24 de Dezembro de 1979, tropas da antiga União Soviética – URSS – invadiram o território do Afeganistão, com o objetivo de proteger o regime marxista que havia tomado o poder em Cabul. Na condição de superpotência, a URSS acreditava numa vitória a curto prazo. Após dez anos de combates, que deixaram 15 mil soviéticos mortos e dezenas de milhares de afegãos mortos ou feridos, a guerra acabou com a vitória do Taleban, a guerrilha fundamentalista muçulmana, na época, apoiada pelos Estados Unidos e hoje inimiga feroz dos norte-americanos.

Grandes potências

Retirada americana em Cabul. Mais uma humilhação para os EUA.

Em 2001, foi a vez dos Estados Unidos invadirem o Afeganistão, com o propósito de derrubar o governo de Cabul, acusado de abrigar os terroristas da Al-Qaeda responsáveis pelos atentados de Setembro de 2011. Após a derrubada do governo do Taleban, os Estados Unidos anunciaram um grande plano de investimentos para reconstrução do país, incluindo infraestrutura, educação e agricultura. As tropas norte-americanas, com apoio de britânicos e canadenses,  permaneceram no país, a fim de dar sustentação ao novo regime, aliado de Washington.

A partir de 2005, a guerrilha do Taleban ressurgiu com força, atacando as tropas ocidentais em várias frentes. A guerra entrou em nova escalada e os Estados Unidos enviaram mais de 40 mil soldados e assessores militares para o país, além das tropas de aliados norte-americanos, como Reino Unido, Canadá e outros. Não adiantou. Em 2020, os EUA começaram a chamar de volta seus soldados, retirada que se completou em 2021. Com a derrota dos americanos, o Afeganistão voltou à mesma situação de vinte anos atrás, com o Taleban no poder.

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