SAÚDE

Isolamento social torna-se tendência no mundo, agravada pela pandemia

Fenômeno tem se tornado um alerta para os sistemas públicos e privados de saúde

Por: Júlia Castello
Da redação | 27 de dezembro de 2022 - 12:50
Bryce Ward, do Washington Post
Com Julia Castello, de São Paulo

A antropologia, a sociologia e a filosofia demonstraram, ao longo dos séculos, a tendência natural do ser humano de viver em comunidade. Como disse Aristóteles em 322 a.C, “O homem é um animal social”. Entretanto, cresceu nas últimas décadas a parcela de indivíduos que deliberadamente se afastou do contato com outras pessoas, fenômeno que se agravou ainda mais durante e após a pandemia da covid-19. O isolamento social tem se tornado ainda um alerta para os sistemas públicos e privados de saúde.

De acordo com a pesquisa “American Time Use Survey” da agência governamental estatística dos Estados Unidos, “United States Census Bureau”, o contato de um norte-americano com amigos ficou estável entre 2010 e 2013, mas começou a diminuir em 2014. O aumento de tempo em contato com outras pessoas em 2019 caiu 37% em comparação com 2014. Em 2019, o norte-americano médio passou apenas quatro horas por semana com os amigos.
Hikikomori, fenômeno que começou no Japão

O isolamento não afeta apenas os mais jovens, como os mais velhos e pessoas que trabalham presencialmente. (Foto: FreePik)

No Japão, o fenômeno tem sido estudado já há pelo menos 3 décadas. As pessoas milhares de pessoas que vivem sem contato social, e passam muitas vezes anos sem sair de casa, são conhecidas “hikikomori”, opção pelo isolamento que passou a ser observada também em vários outros lugares do planeta.

O termo faz referência à uma condição de isolamento apontada pelo psicólogo japonês, Tamaki Saito, em 1998 no seu livro “Isolamento social: uma adolescência sem fim“. De acordo com o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar japonês, cerca de 541 mil pessoas, o que equivale a 1,57% da população no país, vivem nessa condição.

Em Hong Kong, uma pesquisa estimou que em 2014, 1,9% da população vivia o tal isolamento. Pesquisadores apontam que a tendência é global atingindo países europeus, como Espanha, Itália e França, como também países da América do Sul, como o Brasil. As principais causas para este isolamento que tem afetado pessoas cada vez mais jovens, de diferentes culturas, gêneros, raças e idades, são as novas tecnologias, as mídias sociais e até a polarização política, como apontam os especialistas.

Efeito pandemia

A tendência ao isolamento foi acelerada pela pandemia de covid-19, que estimulou o isolamento social para controle de contaminação pelo vírus. A pesquisa “American Time Use Survey” mostrou que os norte-americanos em 2021 passaram apenas duas horas e quarenta e cinco minutos por semana com amigos próximos, o que representa uma queda de 58% em relação ao período de 2010 à 2013.

Declínios semelhantes podem ser percebidos mesmo quando a definição de “amigos” é expandida para incluir vizinhos, colegas de trabalho e clientes. O norte-americano passava 15 horas por semana com esse grupo mais amplo de amigos em 2012, 12 horas por semana em 2019 e apenas 10 horas por semana em 2021. Entretanto, ao contrário do que se possa esperar, os norte-americanos não transferiram esse tempo para conviver mais com suas esposas, maridos, companheiros ou filhos. Em vez disso, eles escolheram passar este tempo sozinhos.

A diminuição do tempo gasto com os amigos foi ainda mais acentuada nos jovens. (Foto: FreePik)

Sem exceções

A pesquisa mostrou ainda que o tempo gasto com outras pessoas diminuiu tanto entre homens, mulheres, brancos e não-brancos, ricos e pobres, pessoas que vivem na cidade ou no campo, casados ​​e solteiros, pais e não pais. O padrão também foi observado inclusive para trabalhadores remotos e presenciais.

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O declínio percentual também é semelhante para jovens e idosos. No entanto, considerando quanto tempo os jovens passam com os amigos, o declínio entre jovens de 15 a 19 anos foi ainda mais acentuado. Em relação ao período de 2010 e 2013, o adolescente norte-americano passou aproximadamente 11 horas a menos com amigos a cada semana em 2021, o que representou uma queda de 64%. Já o tempo que passaram sozinhos, aumentou para 12 horas, o que representou um aumento  48%.

Isolamento pode provocar aumento de crimes violentos no mundo. (Foto: FreePik)

Consequências ainda incertas

Mesmo com as vacinas, a diminuição de casos de covid, e o afrouxamento das medidas sanitárias governamentais, o isolamento pode ter mudado os hábitos dos indivíduos permanentemente. Uma pesquisa do Pew Research Center divulgada em agosto deste ano mostrou que 35% dos norte-americanos dizem que participar de grandes reuniões, sair e socializar pessoalmente se tornou menos importante desde a pandemia.

De acordo com os pesquisadores ainda é cedo para saber as consequências a longo prazo desta mudança. As organizações e serviços de saúde, entretanto, já evidenciam que passar tempo com outras pessoas traz benefícios físicos e mentais para a saúde dos indivíduos e até efeito no sucesso profissional. Por isso é importante se esforçar pra ir num encontro de amigos da escola, um jantar familiar, ir ao cinema com o companheiro ou mesmo no museu com os filhos. O isolamento pode provocar inclusive, aumento de comportamentos agressivos e até mesmo o aumento de crimes violentos.

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