A aprovação do produto pela FDA abre caminho para a produção e comercialização em larga escala
Do Washington Post
Com Mário Augusto, de São Paulo
A agência federal que faz o controle de alimentos nos Estados Unidos, a FDA, certificou que um produto à base de carne de frango cultivada em laboratório pela Upside Foods, uma start-up da Califórnia, é seguro para consumo humano.
A decisão abre caminho para nos próximos meses produtos derivados de células animais reais — mas que não exigem a geração do animal e nem que haja necessidade do abate — já estejam disponíveis nas prateleiras de supermercados e restaurantes nos EUA.
A Upside Foods, anteriormente conhecida como Memphis Meats, está colhendo células de tecidos animais viáveis e cultivando carne comestível sob condições controladas em biorreatores, carne que a empresa diz que é idêntica à produzida convencionalmente.
Alternativa à pecuária tradicional, o cultivo de carne em laboratório é visto como uma forma de mitigar as mudanças climáticas e têm sido um dos principais tópicos de discussão esta semana na COP27, a conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, no Egito.
Se os consumidores em geral vão aceitar incluir a carne de laboratório na alimentação diária, isso ainda é uma incógnita, apesar do investimento feito em pesquisa para desenvolver a tecnologia. Especialistas em negócios consideram que o mercado para esses produtos de carne alternativa esfriou. E os preços altos também serão um desafio para a adoção generalizada pelos consumidores.
Ainda assim, os defensores da carne cultivada dizem que ela tem um enorme potencial para o futuro.
“Ainda chegará o dia em que veremos isso funcionar, o que vai modificar todo o sistema alimentar da humanidae”, disse Costa Yiannoulis, sócio-gerente da Synthesis Capital, o maior fundo de tecnologia alimentar do mundo. “Os EUA são o primeiro mercado significativo que aprovou o modelo de produção — isso é inovador.”
A indústria de carne cultivada em laboratório se difundiu para mais de 151 empresas em seis continentes, com investimentos de US$ 2,6 bilhões em investimentos, de acordo com o Good Food Institute, um grupo sem fins lucrativos que promove alternativas à carne tradicional. Ainda assim, os custos iniciais de produção podem tornar os produtos proibitivamente caros.
Se as carnes de laboratório conseguirem de fato replicar o sabor e a textura da carne tradicional, a um custo semelhante ou menor e com menos desvantagens, isso pode mudar o jogo da nutrição global, admitem muitos especialistas em alimentação.
O Instituto do Meio Ambiente de Estocolmo divulgou recentemente um relatório que descobriu que a produção de alimentos de origem animal é responsável por até 20% das emissões totais de gases do efeito estufa e que, se o consumo de carne continuar seguindo as tendências atuais, será impossível manter o aquecimento global abaixo do meta de 1,5 graus Celsius.
“Este é um marco crítico para o futuro dos alimentos. A carne cultivada estará disponível em breve para os consumidores nos EUA que desejam que seus alimentos favoritos sejam produzidos de forma mais sustentável, com a produção exigindo uma fração da terra e da água da carne convencional quando produzida em escala”, disse Bruce Friedrich, presidente do Good Food Institute.