MEIO AMBIENTE
Mundo tem 9 anos para evitar aquecimento catastrófico, diz estudo

Nove anos para o mundo evitar aquecimento catastrófico, diz estudo

Cientistas alertam para invasão de lobistas na COP27 interessados em promover o uso de gás natural neste momento de crise energética

Da redação | 11 de novembro de 2022 - 14:06
Mundo tem 9 anos para evitar aquecimento catastrófico, diz estudo
Por Sarah Kaplan,
Do Washington Post

SHARM EL-SHEIKH, Egito – As nações provavelmente queimarão seu orçamento de carbono restante nos acordos do clima em menos de uma década se não reduzirem significativamente a emissão de gases de efeito estufa, fazendo com que o mundo ultrapasse o limiar crítico de aquecimento e desencadeando impactos catastróficos para o clima.

É o que revela o Orçamento Global de Carbono, uma avaliação anual de quanto o mundo pode emitir para permanecer dentro de suas metas de aquecimento, estabelecidas nas sucessivas COPs. O estudo descobriu que a poluição por gases de efeito estufa atingirá um recorde este ano, com grande parte do crescimento proveniente de um aumento de 1% na emissão de dióxido de carbono da queima de combustíveis fósseis.

Novos projetos de gás – lançados em resposta à invasão da Ucrânia pela Rússia e resultante da crise global de energia – consumiriam 10% do orçamento de carbono restante, tornando quase impossível para as nações cumprir a meta do acordo de Paris de limitar o aquecimento a 1,5 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais, de acordo com outro relatório divulgado na quarta-feira.

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Para ter a chance de manter o aumento da temperatura global em 1,5 graus Celsius, a humanidade não pode liberar mais de 380 bilhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente nas próximas décadas – uma quantidade equivalente a cerca de nove anos de emissões atuais, diz o relatório.

Mundo tem nove anos para evitar aquecimento catastrófico, diz estudo

O mundo está caminhando para 2,4°C de aquecimento. Fonte: Climate Action Tracker.

Alerta da ciência ignorado

No entanto, mesmo quando os cientistas alertam sobre a trajetória perigosa do mundo, os líderes da COP27 defendem o gás natural como um “combustível de transição” que facilitaria a mudança do mundo da energia fóssil para as renováveis.

Pelo menos quatro novos projetos de gás foram relatados ou anunciados nos últimos 10 dias, com vários países africanos se comprometendo a expandir a capacidade de exportação e fornecer mais combustível para a Europa. Representantes do Egito e dos Emirados Árabes Unidos, os anfitriões da conferência climática do ano que vem, deixaram claro que veem a COP27 como uma oportunidade para promover o gás.

Essa retórica alarmou cientistas e ativistas que dizem que a expansão da produção de gás natural pode prejudicar comunidades vulneráveis ​​e empurrar o planeta para um futuro mais quente e infernal.

O estudo de gás do grupo de pesquisa Climate Action Tracker mostra que os projetos planejados mais do que dobrariam a capacidade atual de gás natural liquefeito do mundo, gerando cerca de 47 bilhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente até 2050.

Ambos os relatórios contrastam com a forma como os combustíveis fósseis – especialmente o gás natural – estão sendo discutidos na COP27.

Países voltam atrás

As nações fizeram história na conferência do ano passado quando concordaram com a necessidade de reduzir gradualmente o carvão e os combustíveis fósseis – a primeira vez que uma referência explícita aos principais fatores do aquecimento foi incluída em um texto de decisão da COP.

Mundo tem nove anos para evitar aquecimento catastrófico, diz estudo

Cientistas alertam para o impacto de novos projetos de exploração de gás natural. (Foto: Pexels)

À margem dessa conferência, um grupo de mais de 20 países se comprometeu a interromper os investimentos públicos em projetos de combustíveis fósseis no exterior até o final deste ano. Mas agora alguns desses mesmos países estão retrocedendo em meio a uma busca frenética por alternativas ao gás russo.

Nesta semana, o presidente dos Emirados Árabes Unidos, Sheikh Mohamed bin Zayed al-Nahyan, disse aos líderes que os Emirados Árabes continuariam fornecendo petróleo e gás “enquanto o mundo precisar”.

O primeiro-ministro grego Kyriakos Mitsotakis pediu um breve aumento na produção de combustíveis fósseis, dizendo que “sem segurança energética não há transição energética”.

O ministro da Energia da Tanzânia, January Makamba, anunciou um novo projeto de exportação de GNL de US$ 40 bilhões. E embora o chanceler alemão Olaf Scholz tenha dito publicamente que “não deve haver um renascimento mundial dos combustíveis fósseis”, seu país também encorajou nações como Argélia e Senegal a expandir sua produção de gás.

Enquanto isso, uma análise dos participantes da conferência pelo grupo de advocacia Global Witness encontrou um aumento acentuado no número de representantes da indústria de combustíveis fósseis desde a COP do ano passado. Cerca de 200 pessoas ligadas ao petróleo, gás e carvão estão incluídas nas delegações dos países, disse o grupo na quinta-feira, e outras 236 estão aqui com grupos comerciais e outras organizações não governamentais.

“Este deveria ser um espaço para discutir soluções climáticas, mas em vez disso está sendo usado para impulsionar combustíveis fósseis”, destacou Lorraine Chiponda, ativista da justiça ambiental no Zimbábue.

Essa tensão ficou evidente em uma reunião de líderes africanos na terça-feira, onde o presidente do Banco Africano de Desenvolvimento, Akinwumi Adesina, declarou que “África precisa de gás” para se desenvolver.

“Queremos ter certeza de que temos acesso à eletricidade”, disse ele, quando a sala irrompeu em aplausos. “Não queremos nos tornar o museu da pobreza no mundo.”

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