COMPORTAMENTO

Divagar é preciso! Pé no chão também é preciso

A divagação ajuda a ordenar os pensamentos. Mas as redes sociais atrapalham

Por: Júlia Castello
Da redação | 20 de outubro de 2022 - 18:34

Mentes felizes refletem sobre o futuro, enquanto mentes infelizes tendem a vagar no passado. Esta é a principal conclusão de um estudo realizado na Universidade de Queen’s, em Ontário, no Canadá, que teve foco na tendência para divagação, observada na maioria das pessoas. Os pesquisadores concluíram que, ficar divagando, pensando sobre a vida é algo positivo. Só temos que tomar cuidado com o excesso.

Divagar entre as memórias é crucial para ajudar a se preparar para o que está por vir, explica o psicólogo Jonathan Smallwood, que conduziu o estudo. Longe de ser perda de tempo, ficar divagando é um pouco de trabalho do cérebro quando ele tem a impressão de que não há muito mais acontecendo.

Por meio de um scanner, o professor acompanhou a movimentação cerebral de voluntários enquanto eles conversavam. Em seguida, fez algumas perguntas básicas para obter informações sobre quando e porque as mentes tendem a vagar e sobre determinados assuntos.

Pensar demais nas coisas do passado pode gerar depressão. (Foto: Pexels)

Sobrevivência e desenvolvimento

Em entrevista para a revista científica, “Knowable Magazine”, o pesquisador afirmou que a divagação é inclusive um dos fatores que permitiu aos seres humanos sobreviverem ao logo do tempo e foi essencial para todos os avanços na ciência, engenharia, cultura, língua. “Acho que animais que se concentravam apenas no presente foram superados por outros que se lembravam de coisas do passado e podiam se concentrar em objetivos futuros, por milhões de anos – até que você tenha os humanos, uma espécie obcecada em juntar as coisas usá-las para ganhar valor agregado para o comportamento futuro”, explica.

Por meio de seus estudos, Smallwood também conseguiu perceber que grande parte das pessoas divagam sobre questões sociais. Como os seres humanos vivem em sociedade, para atingir objetivos, mesmo que sejam individuais, eles necessitam de outras pessoas. Como os seres humanos são imprevisíveis, a divagação ajuda a tentar entender, prever, se preparar para estas interações.

Ao ser questionado sobre a divagação em excesso, principalmente no passado, que pode causar ansiedade e até depressão, ele explica que é possível controlar a sua própria divagação mental. Para ele, o segredo é concentrar sua atenção para o momento presente, e com a prática, isto pode se tornar um hábito. “A terapia cognitivo-comportamental para a depressão, que visa ajudar as pessoas a mudar a forma como pensam e se comportam, é outra maneira de reduzir a divagação prejudicial da mente”, afirmou.

Interação social

Smallwood vê as redes sociais como algo muito semelhante as divagações. Hoje, um dos maiores alertas de médicos e acadêmicos é que as redes sociais reduzem o ócio, que em quantidade necessária é importante para a saúde mental. O pesquisador explica que em um dos seus estudos eles trancaram as pessoas em pequenas cabines e faziam elas realizarem algumas atividades. Após saírem das salas, elas falavam que tinham pensando muito em seus amigos. Segundo ele, isto mostra que interação social é tão importante, que explica porque a divagação é tão social. Os pensamentos nestes casos se concentram na maior parte na antecipação do que as outras pessoas vão fazer ou que fizeram.

Por isso, segundo ele, as redes sociais estão preenchendo parte da lacuna da divagação da mente. “Você pode tentar imaginar o que seu amigo está fazendo ou pode simplesmente descobrir online”, explica. Entretanto, Smallwood evidencia que há uma diferença primordial entre elas e que deve servir de alerta para o uso excessivo das redes: “Quando você está divagando, você está ordenando seus próprios pensamentos. A rolagem das mídias sociais é mais passiva”, afirma.

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